quinta-feira, Junho 07, 2007

Universidades Privadas: canudos a peso de ouro

As receitas em propinas do Ensino Superior privado rondam os 250 milhões de euros por ano. Há quem acorde de madrugada para trabalhar e poder pagar um diploma. Conheça alguns dos alunos das [Universidades] privadas.
O que mais preocupa Clede é o tempo que demora desde o Instituto Superior Politécnico Internacional (ISPI), em Benfica, até casa, em Santo António dos Cavaleiros. Sai das aulas pelas 23 horas e demora cerca de uma hora até meter a chave à porta [de sua casa]. Durante a semana só vê o filho de oito anos quando o pequeno já está a dormir. Quando sai de manhã para o trabalho só tem tempo para [lhe dar] um beijo de despedida.

Aos 29 anos, Clede Gomes, nascida em São Tomé e Príncipe, está a um ano de concluir o curso de Gestão Bancária e Seguradora no ISPI, uma escola que pertence aos mesmos proprietários e funciona nas mesmas instalações da Universidade Internacional (UI). O que ganha a trabalhar num café no Cais do Sodré, onde entra às 8 horas, mal chega para pagar a propina mensal de 200 euros. “Livros... compro de vez em quando, muito do material [bibliográfico] é fotocopiado. Não consegui bolsa [de estudo], por isso custa-me, [o curso]é caro, mas tenho de investir no [meu] futuro.”

Quando acabou o 12º ano viu um anúncio do curso do ISPI e não hesitou – afinal, o primeiro trabalho que teve na terra natal foi num banco. A falta de tempo durante a semana obriga Clede a abdicar de várias horas do fim-de-semana para estudar. “O curso não é muito difícil, para mim é mais complicado porque não tenho tempo para estudar durante a semana.”

Os últimos dias foram marcados pela tranquilidade, mas também pelos rostos fechados dos alunos da UI e do ISPI. Depois da decisão do ministro do Ensino Superior, Mariano Gago, de retirar o estatuto de interesse público à UI os alunos preferem resguardar-se e não falar muito. A experiência recente da [Universidade] Independente – com cisões entre várias facções de proprietários em consequência das decisões ministeriais – ainda está bem presente na memória de quem está a pagar para obter um canudo. “Tivemos uma reunião com os administradores, que nos explicaram que tudo vai ser resolvido. Esperemos que seja assim”, diz um aluno de Gestão Hoteleira da UI. Clede Gomes diz que tem “fé”. “Todo o mundo está triste, mas acho que não vai fechar. E, se acontecer, têm obrigação de nos dar uma saída.”

Mais a norte, o sentimento é o mesmo. Ricardo Mesquita, caloiro de Direito da UI da Figueira da Foz, espera que a instituição [de Ensino Superior] não feche portas. A acontecer terá de pedir transferência para outra Universidade. “O nosso nome vai ficar sempre manchado. Por muita tinta que corra essa mancha não desaparece com a facilidade que desejaríamos.”

Os alunos da Universidade Moderna já se vão habituando às polémicas. Depois dos escândalos do final da década de 90 – que levaram ao julgamento de 13 arguidos, acusados de gestão danosa, burla, falsificação de documentos e corrupção – nas últimas semanas voltaram a surgir notícias de irregularidades no funcionamento da instituição [de Ensino Superior] e de dívidas a professores e ao Fisco. Nada que tenha perturbado o funcionamento dos vários cursos [da Universidade Moderna].

“Desde que estou aqui já não é a primeira vez que se fala da [Universidade] Moderna nos jornais. Mas não dou muita importância ao que se diz”, afiança Alexandra Ramalho. A aluna do 3º ano de Arquitectura paga uma propina de 250 euros/mês. Mas a [Universidade] Moderna não foi a sua primeira escolha. “Comecei na [Universidade] Lusíada mas detestei as aulas e o ambiente.” Decidiu tentar a [Universidade] Moderna, apesar do nome manchado. “O curso é bom, as pessoas conhecem-se, os professores conhecem-nos, não tem comparação.”

Quem também migrou da [Universidade] Lusíada para a [Universidade] Moderna foi a colega Lígia Silva. “Faltava-me a parte mais prática. Andei à deriva na [Universidade] Lusíada”, diz a estudante, assinalando que na anterior escola “eram muitos alunos no curso, só passavam os que eram mesmo muito bons. Não é muito saudável vivermos só para estudar, havia falta de ética, muito despique”. Lígia paga o curso do seu bolso – trabalha ao fim-de-semana num supermercado. Por mês, para além da propina, gasta mais algumas dezenas de euros em material, refeições, livros. “Custa pagar, mas tem de ser...”

Carlos Morais já tirou um curso de Design de Interiores, no Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing [IADE]. Decidiu voltar a estudar. “Não podia assinar projectos, precisava do curso de Arquitectura, por isso pedi as equivalências e vim para aqui”, resume o finalista da [Universidade] Moderna. Considera o curso bastante exigente. “Tem uma base de trabalho muito forte, o que é bom.” Carlos não deixa de se sentir perturbado quando os telejornais abrem os noticiários com problemas na [Universidade] Moderna. “Acaba por nos influenciar e aos empregadores também. Temos consciência de que o curso tem qualidade e é chato aparecerem polémicas por dá cá aquela palha. O curso fica um bocado afectado e podemos ter consequências no futuro.”

Mas terá sido o caso [Universidade] Moderna, em 1999, que levou a uma melhoria da qualidade do ensino. Pelo menos essa é a percepção do aluno de Arquitectura. “Começaram a perder alunos, tiveram que melhorar a qualidade dos cursos, o que acaba por ser positivo. Com menos alunos, aprende-se mais.”

SÓ A [Universidade] LUSÓFONA TEM DEZ MIL ESTUDANTES

Mais de 80 mil alunos frequentam as 116 instituições de Ensino Superior privado. Por ano o valor pago em propinas ronda os 250 milhões de euros. Em média, uma licenciatura fica entre 230 a 260 euros por mês. Mas o facto de se ‘comprar’ um canudo não é sinónimo de sucesso profissional garantido. Olhando para a tabela [mostrada no final da própria notícia do "Correio da Manhã"] percebe-se que no ano passado a taxa de sucesso no exame final de avaliação e agregação dos estagiários à Ordem dos Advogados foi inferior entre os licenciados [em Direito] pelas [Universidades] privadas.

A maior parte dos alunos do [Ensino Superior] privado estuda nas Escolas Superiores e [Institutos] Politécnicos. Nas Universidades estavam inscritos no início do [presente] ano lectivo 31 mil alunos. A [Universidade] Lusófona concentra cerca de um terço destes estudantes, com cerca de dez mil alunos. É a maior Universidade privada (a Universidade Católica tem um regime especial, concordatário).

Margarida Samuel é caloira de Informática de Gestão na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT) no Campo Grande, em Lisboa. Paga 170 euros porque tem [apoio/subsídio de] Acção Social. Veio de Angola há dois anos e concluiu o [Ensino] Secundário por cá. Tinha média para entrar na Universidade do Porto [pública], mas iria gastar mais do que se optasse por uma [Universidade] privada. Foi o que fez, a contragosto: “É sempre mau entrar para uma [Universidade] privada, porque há sempre aquela sensação de facilidade.” Mas garante que não foi isso o que encontrou. “Acho os professores justos e por vezes muito rigorosos.”

Mais crítico é Luís Bastos. Também natural de Angola, pagou 356 euros de propina no primeiro semestre e 212 euros desde Fevereiro. As indecisões sobre o futuro são a sua principal preocupação: tirou um curso de Técnico de Telecomunicações, esteve a trabalhar, “mas não sabia o que queria”. Ou melhor, queria estudar Redes, mas foi parar a Engenharia Informática. “Sou um bocado preguiçoso”, admite, mas vai dizendo que “muitos professores desmotivam os alunos”. E explica: “Nunca têm tempo para tirar dúvidas, a maioria [dos professores] quer é despachar. Como há alunos com formações diferentes nem todos conseguem acompanhar e acabam por desistir.” Ao final do mês a factura sai cara: além da propina paga o aluguer de uma casa em Sacavém.

Ana Margarida Carvalho é caloira de Biologia e sabe o que é estudar quase de graça. Com média de 17 valores, entrou em Évora. Lá ficou dois anos, mas teve de voltar para Lisboa. Paga 375 euros por mês. “Não usamos assim tanto material, não há muitas aulas laboratoriais e as casas de banho são más”, remata. A aluna da [Universidade] Lusófona aponta o dedo à “má estruturação” do curso e quer transferir-se para a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, do outro lado do Campo Grande. Quem também já passou pelo ensino público foi Isabel Fernandes. Entrou no curso de Psicologia na Faculdade de Psicologia [da Universidade] de Lisboa mas decidiu mudar – está em Biologia. “De duas em duas semanas mudam as salas, andamos sempre a saltar. Há muita gente, torna-se confuso”, critica a aluna da [Universidade] Lusófona.

Num ponto as alunas concordam: as polémicas que vão surgindo em torno das [Universidades] privadas só prejudicam os alunos. “Ficamos rotulados sem ter culpa”, conclui Isabel.

ILUSTRES DAS [Universidades] PRIVADAS

Paulo Teixeira Pinto (BCP) e Paula Teixeira da Cruz (PSD) foram colegas em Direito, na Universidade Livre. O primeiro-ministro, José Sócrates, licenciou-se em Engenharia Civil na Independente. O ex-secretário de Estado da Defesa Henrique de Freitas licenciou-se em Relações Internacionais na Lusíada, enquanto o deputado António José Seguro tirou Relações Internacionais na Autónoma. Tomás Morais, seleccionador de râguebi, formou-se na Lusófona, em Educação Física e Desporto.

O QUE DIZEM OS ALUNOS DA INTERNACIONAL

"CONFIANTE EM ACABAR" (Joana Coelho, Internacional, Psicologia)

“Acho que se levantou um movimento que pretende acabar com as universidades privadas a todo o custo e estão a pegar em tudo o que podem. Estou confiante de que vou acabar o curso aqui, espero que o investimento dos meus pais seja compensado.”

"CANUDO COM MÉRITO" (Ricardo Mesquita, Internacional, Direito)

“Nem sei em quem acreditar. Espero que se a administração tiver razão a universidade se mantenha. Se, por outro lado, as falhas se comprovarem, estamos a ser ultrajados. Prometeram-nos uma universidade que nos dava um canudo com mérito e valor. Se estamos a comer gato por lebre deve ser apontado e aí concordo com a decisão do Governo.”

OPINIÃO DE ALUNOS QUE GOSTAM DA ESCOLA QUE ESCOLHERAM PARA ESTUDAR

"AULAS RENDEM MAIS" (Lígia Silva, Moderna, Arquitectura)

“Estive na Lusíada e gostei muito do sistema de ensino e dos professores, mas faltava-me a parte prática, que é melhor aqui na Moderna. Como somos menos alunos as aulas rendem mais, os professores têm mais atenção connosco. Na Lusíada andava à deriva e se não estamos bem demoramos sete ou oito anos a acabar um curso.”

"POLÉMICAS TÊM DATA" (Carlos Morais, Moderna, Arquitectura)

“As polémicas sobre as privadas aparecem sempre na mesma data, que é a altura do ano em que os candidatos têm de escolher para onde querem ir. Acho que o curso tem qualidade, tem uma vertente muito prática, vamos para o terreno, há várias parcerias com faculdades estrangeiras e workshops ao longo do ano.”

"UM AMBIENTE FAMILIAR" (Alexandra Ramalho, Moderna, Arquitectura)

“Há um ambiente familiar na universidade, o que é óptimo. Às vezes há notícias sobre o que se passa aqui, mas quem anda cá não tem nada essa ideia. Se formos a ver todas as privadas têm qualquer coisa escondida, até as públicas devem ter. O curso está a corresponder às minhas expectativas, é bastante prático.”

"CURSO TÉCNICO É IDEAL" (Ana Ramalho, ETIC, Curso Geral de Fotografia)

“A mensalidade é de 330 euros, mas no início até nos dão material, como rolos e blocos de papel para os negativos. Quis tirar um curso técnico porque é ideal para ter prática, não é só exames. Além disso, os cursos universitários são de cinco anos e é cada um a puxar para si. Não há garantia que por ter uma licenciatura consiga trabalho.”

LUSÓFONA

A Lusófona é a maior privada e também já viveu polémicas: em 1996 surgiram denúncias de gestão danosa, fraudes e venda de diplomas falsos. Já em 2002 um grupo, que incluía a fundadora Teresa Costa Macedo, acusou o presidente de várias ilegalidades.

"SOMOS ROTULADOS" (Ana Margarida Carvalho, Lusófona, Biologia)

“Há muita desorganização na universidade. Para obter um documento temos de ir a vários sítios. Acho que há muitos alunos, mais do que devia. As polémicas à volta das privadas não são boas, porque os alunos acabam por ficar rotulados. Os professores até nos dizem que vamos ter mais dificuldades para arranjar emprego.”

"PROFESSORES EXPLICAM BEM" (Inês Dias, Lusófona, Biologia)

“Acho que o curso até não é mau: os professores explicam bem, o ambiente é bom. Mas acho que há muita matéria de Física e Matemática, áreas mais viradas para os alunos de Engenharias, que têm algumas cadeiras connosco. Podiam dar mais coisas da Biologia, que é a única coisa de que gosto. A universidade também está muito desorganizada.”

"PROPINAS SÃO MUITO CARAS, É UMA DÍVIDA" (Luís Bastos, Lusófona, Eng. Inf.)

“O curso não está bem dentro do que estava à espera, mas também sou um bocado relaxado com o estudo. É um bocado puxado para as matemáticas, não me dou muito bem. Acho que as propinas são muito caras. Podiam baixá-las porque é uma dívida muito grande. São mais de três mil euros por ano. E tem havido confusão por causa da adaptação a Bolonha. Entram 120 para o curso mas só 15 ou 20 conseguem acompanhar os professores. Como não têm paciência deixam-nos para trás e acabamos por desistir.”

PAGAR 635 EUROS POR MÊS PARA SER DENTISTA

A principal fonte de receitas das instituições privadas de educação e Ensino Superior são as propinas e os cursos ligados às Ciências da Saúde são os mais caros. A mensalidade de Medicina Dentária na Universidade Fernando Pessoa vai custar aos alunos 635 euros no próximo ano lectivo.

Na Lusófona a Medicina Veterinária é o curso mais caro: 558 euros/mês no ano lectivo 2007/08. Além das propinas (se forem pagas anualmente têm desconto, havendo várias com protocolos assinados com entidades bancárias para a concessão de empréstimos) e do preço de vários documentos – diplomas a 200 euros ou certificados de habilitações a 70 euros, quando mais não são do que folhas de papel carimbadas... – outras fontes de rendimentos importantes nas privadas são as matrículas e inscrições.

Na Autónoma, por exemplo, a candidatura custa 170 euros, a inscrição 200 e a matrícula fica-se pelos 190 euros. Na Fernando Pessoa as matrículas vão dos 300 aos 350 euros (inscrições entre 250 e 300 euros) e na Lusíada e Moderna a inscrição custa 170 euros. A matrícula em Ciências Farmacêuticas na Lusófona custa 1750 euros, enquanto em Medicina Veterinária chega aos 4900 euros.
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Deve conferir-se a própria notícia do "Correio da Manhã" para se dar conta de alguns dados estatísticos [que aqui não reproduzimos]: «ADVOGADOS: [Universidades] PRIVADAS COM MAIS INSUCESSO [na aprovação de estagiários na Ordem]» e a evolução de «QUANTOS ESTUDAM NAS UNIVERSIDADES PRIVADAS».

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